Círculo do Desenvolvimento

Pleno Emprego e Cidadania

Entrevista dado a Rogério Lessa, em 20-09-07: Helio Silveira – Organizador do Círculo do Desenvolvimento

Posted by hsilveira em setembro 20, 2007

Ver o BNDES atuando de forma pró-ativa, na vanguarda do desenvolvimento nacional. Com esse espírito, estamos criando o Círculo do Desenvolvimento. E o momento não poderia ser mais apropriado, como destaca o economista Hélio Silveira nesta entrevista. “É interessante, para nós, desenvolvimentistas do BNDES, ver as bolsas mundiais recuperarem perdas, ‘aliviadas’ a cada atuação dos Estados Grandes Nacionais, injetando liquidez para salvar o sistema, deixando temporariamente de lado todos os preceitos liberais”, observa.Para Silveira, se não sair da armadilha do curto prazo e partir para o desenvolvimento com estratégia de médio e longo prazos, o Brasil irá viver, novamente, a incerteza econômica dos anos 90. “Nosso objetivo é retomar o debate sobre finanças funcionais, que prega que o Estado é autônomo para realizar gastos acima das receitas tributárias e por esse caminho levar a economia ao pleno emprego”, resume o economista, criticando a política de juros altos para evitar um suposto risco de inflação. “Vivemos sempre com o receio de que o zelo exacerbado das autoridades para com nossos rentistas aborte a possibilidade de qualquer crescimento.”

O que se pretende com o Círculo do Desenvolvimento?

Queremos recuperar, divulgar e debater, entre os técnicos do Banco, o aparato teórico que garantiu a uma boa parte do mundo o Estado do Bem Estar Social do Pós-guerra até os anos 70. A partir da divulgação desse conhecimento, queremos debater um caminho para retornar ao desenvolvimento, discutir as restrições “impostas” ao crescimento acima de 3% ao ano.

Acreditamos que o país reúne condições autônomas e sustentáveis para voltar a crescer a taxas de 7% ao ano. Eliminadas as restrições impostas pela filosofia rentista que domina o país há 25 anos, fica claro que através de um planejamento estratégico existe potencial para crescimento, apenas se considerarmos o déficit de investimentos nas áreas sociais e na infraestrutura que deixaram de ser realizados neste quarto de século de baixo crescimento. E tudo isso com muito emprego!

Finalmente, temos a pretensão de que nosso trabalho sinalize para um Plano de Desenvolvimento Nacional.

Como convencer a todos os funcionários do BNDES?

Nossa vontade não é o convencimento, mas, sim, o esclarecimento. Nossa maior pretensão é ser o mais claro possível, desmistificando e simplificando o entendimento da economia, do desenvolvimento e do planejamento estratégico. Para tanto, queremos a participação de todos aqueles, economistas e não economistas, que entenderam a missão do Banco e querem vê-lo pró-ativo.

Se conseguirmos 5% do quantitativo do BNDES como participantes e divulgadores de nossos ideais de forma permanente já estaremos satisfeitos. Acreditamos que esses colegas serão suficientes para manter os ideais de nosso Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social.

Por quê?

Entrei para o BNDES em abril de 1977. Naquela época ainda vivíamos os últimos anos do “milagre econômico”, dos planos de crescimento – os PND’s – e a última fase do crescimento a taxas de 7% ao ano. A partir de 1982, porém, me vi frustrado como funcionário do Banco e assim continuo até hoje. Acho que este é o caso de meus colegas. Neste período, vi minha instituição atuar na trincheira da resistência, ajudando a manter o financiamento de longo prazo para investimentos pontuais, mas não de forma pró-ativa e na vanguarda do debate do desenvolvimento nacional. Hoje, entretanto, vejo que reunimos as condições para retomarmos nossa missão.

Que condições são essas?

Vemos vontade por parte do governo ao lançar o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e, também, pelas condições externas favoráveis que nos permitiram acumular reservas e abrir uma janela de oportunidades para não perdermos, mais uma vez, “o bonde da história”. Entretanto, no momento em que conseguimos condições mínimas para retomarmos um projeto autônomo de desenvolvimento nacional, aparecem nuvens carregadas no horizonte internacional, representadas pela crise dos financiamentos imobiliários americanos, trazendo incerteza para a economia global. Neste momento temos que centrar nossas forças e soberania para não deixarmos escapar recursos e, como resposta, sair para consolidar o plano de desenvolvimento. 

Mas se houver uma fuga dos investidores internacionais?

Vamos esperar que não, e que a crise se dissipe, como dá sinais, pela pronta atuação dos bancos centrais dos países desenvolvidos injetando moeda a rodo no sistema financeiro internacional e até assumindo títulos “podres” para tentar evitar o estouro da bolha especulativa dos ativos financeiros e suas operações alavancadas e não contabilizadas, que só aparecem, verdadeiramente, nas crises de liquidez.

 Aliás, a especulação internacional que volta e meia anda dando susto na economia “globalizada”, advinda da filosofia liberal dos anos 90, mais uma vez nos mostra a lição: investidores internacionais, na verdade especuladores de curto prazo, não servem para nada, só querem um ganho de curto prazo e escapam ao primeiro sinal de perigo. É interessante, para nós, desenvolvimentistas do BNDES – é isso que somos: desenvolvimentistas de longo prazo do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social, e não “financista curto prazista” de uma instituição financeira qualquer – vermos as bolsas mundiais recuperarem perdas, “aliviadas” a cada atuação dos Estados Grandes Nacionais, injetando liquidez para salvar o sistema, deixando temporariamente de lado todos os preceitos liberais representados pelo risco moral de ajudar os “pobres financistas” quebrados, além da peremptória declaração do presidente dos EUA, que vai refinanciar os compradores, o inocente elo inicial de toda a cadeia especulativa.

O que não pode ser feito em caso de uma saída abrupta dos investidores de curto prazo aqui no Brasil?

Ficaríamos preocupados se o governo, usando o receituário liberal, sancionasse a fuga dando os dólares tão arduamente acumulados, ou que elevasse fortemente os juros, abortando nosso crescimento que parece caminhar para alcançar 5% este ano. Ele poderia, em vez disso, adotar uma política não ortodoxa, controlando a saída, sancionando alguma desvalorização do real, mas preservando de toda forma possível o nível adequado de reservas, de maneira a assegurar redução do endividamento externo líquido que conquistamos. E entender, definitivamente, que se não sairmos da armadilha do curto prazo e partirmos para o desenvolvimento com uma estratégia de médio e longo prazo, iremos viver, novamente, a era de incerteza econômica dos anos 90.

Qual a mais importante lição dessa operação de salvamento do sistema financeiro internacional?

Ela demonstra a necessidade de atuação do Estado Grande e do Banco Grande nas horas de crise. Amenizando um pouco, diria que sou da escola “nelson rodrigueana” da economia como ela é, ou seja, deixando de hipocrisia liberal. Advogamos que o Estado e suas instituições não só são importantes para resolver as crises capitalistas como também são fundamentais para orientar, induzir, planejar e participar da estratégia do desenvolvimento. Dependendo do estágio de desenvolvimento e desigualdade social de uma nação, como é o nosso caso, defendo a participação direta do Estado para desenvolver o aparelhamento físico-econômico e social. Entretanto, condeno a participação dos Estados Grandes Nacionais apenas para salvar o sistema. Essa ajuda – injetar liquidez a fundo perdido – resolve momentaneamente, mas cria as condições para outra crise especulativa breve.

É favorável a uma atuação, do G7, para ajudar as nações em desenvolvimento?

Por que não injetar liquidez a fundo perdido, através das instituições financeiras oficiais, para desenvolver a África Subsaariana ou, então, amenizar as exigências tarifárias contra os produtos exportados por essas nações?

Por que não adotar a Taxa Tobin, não tanto para efeito arrecadatório, ou mesmo para evitar crises, mas, sobretudo, para registrar e trazer à tona as operações em derivativos não conhecidas? 

Você fala em Estado Grande, Banco Grande, não parece uma idéia autoritária de Estado forte?

Quando falamos em “Estado Grande” ou “Banco Grande”, não é a idéia do Estado autoritário. Na verdade falamos do Estado plural, democrático e autônomo. As expressões “Estado e Banco Grandes” são cunhadas por L.Randall Wray, que segue a trilha de Abba Lerner, Kalecki, Keynes e Minsky, todos autores apresentados em nossa base teórica, que advogam e reconhecem a eficácia  da atuação do  Estado para regular as crises, estimular ou promover direta ou indiretamente o desenvolvimento e o pleno emprego.

Nosso objetivo é retomar o debate sobre finanças funcionais, que prega que o Estado é autônomo para realizar gastos acima das receitas tributárias e por esse caminho levar a economia ao pleno emprego. Combatemos a idéia liberal apregoada e consolidada no mundo, no último quarto do século, que só o Estado reduzido, mínimo e com finanças equilibradas – portanto, ausente das decisões econômicas e políticas – favorece o crescimento capitaneado pelas iniciativas privadas, a mesma proposição que afirma que existe uma taxa natural de desemprego que equilibra a inflação.

Como têm agido os últimos governos brasileiros?

Nosso país, ao perseguir o equilíbrio fiscal, tem produzido, historicamente, o período contínuo mais longo de baixo crescimento. Entretanto, China e Índia, na mesma época e com condições naturais piores que o Brasil, têm produzido um forte crescimento de causar espanto ao mundo, exatamente por passar ao largo do receituário liberal. E não é demais lembrar que o crescimento Chinês e suas compras de commodities têm sido, desde 2003, a principal razão da formação de nossas reservas. E que os países em desenvolvimento que abandonaram as teses liberais experimentaram, neste último qüinqüênio, fortes taxas de crescimento.

 Por estas questões, achamos que demos boas razões para explicar porque queremos mudar de rumo e voltar ao nível de nosso crescimento histórico, quando surpreendíamos o mundo.

Todo este crescimento pretendido não provocaria a volta da inflação?

Foi bom você tocar neste fetiche. De fato, a ameaça da volta da inflação tem sido utilizada como bicho-papão, sempre que se pensa no retorno do crescimento histórico. Qualquer possível variação dos componentes do índice tem sido motivo para elevar a taxa básica de juros (Selic). Então, vivemos sempre com o receio de que o zelo exacerbado das autoridades para com nossos rentistas aborte toda possibilidade de qualquer crescimento. Para eles, manter nossa economia em baixo crescimento, contas públicas equilibradas, juros altos, baixa inflação é a melhor garantia de manter seus ganhos sem risco. Querem, se possível, manter a eterna paz dos cemitérios.

Mas o “bicho-papão” do retorno inflação é sempre lembrado como responsável pela perda do poder aquisitivo dos trabalhadores…

No curto-prazo a mensagem funciona, mas, usando uma grande angular, vemos que num período maior o baixo crescimento é responsável pela taxa de desemprego em torno de 10% e pela informalidade de cerca de 30% da população ativa. Não estamos advogando trocar crescimento por inflação, mas queremos que todos entendam que essas políticas têm sido responsáveis pelo subemprego da população ativa e pela concentração do poder econômico em grandes grupos. A política de juros altos por tanto tempo tem consolidado a formação de grandes empresas e oligopolizado os setores econômicos. A política de desestatização e a entrega de setores, monopólios naturais do Estado, verdadeiros cartórios, para a iniciativa privada, também favoreceu o processo de concentração e o poder econômico desses grupos. Então, realmente, eles têm força para abortar qualquer possibilidade de crescimento que os desagrade pela via dos aumentos de preço.

Por que é tão difícil para esses grandes grupos aceitar que o aumento da demanda os favoreceria?

Para que correr riscos se é possível manter o Estado mantido refém de seus interesses? Assim, estamos diante da armadilha do curto prazo. Por outro lado, nosso país, pelo enfoque de uma visão estratégica de médio prazo, reúne condições excepcionais de desenvolvimento de nossas riquezas. Poucos percebem que reunimos as variáveis essenciais deste início de século. Apesar de continuarmos a usar de forma não planejada nossos recursos naturais, ainda detemos, num território de extensão continental, a maior floresta tropical do mundo, a maior quantidade de água doce e a maior extensão de terras agricultáveis do mundo, com a melhor incidência solar sobre um clima tropical. Isto representa de imediato, através de uma ação planejada e organizada, por um Estado Soberano, a possibilidade de liderança na produção do combustível renovável deste início de século, sem descuidar da produção de alimentos e preservação de nossos ambientes naturais. Representa o domínio de toda cadeia do etanol até a produção do plástico biodegradável. Nossos cursos d’água ainda apresentam a possibilidade tanto de produção de mais 2/3 de nossa eletricidade limpa e barata, como de alimentos e da pesca utilizando o trabalho da população ribeirinha.

Entretanto, todo este potencial de riqueza fica comprometido pelo receio do aumento da inflação, entende?

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2 Respostas to “Entrevista dado a Rogério Lessa, em 20-09-07: Helio Silveira – Organizador do Círculo do Desenvolvimento”

  1. Bruno said

    Helio,
    Muito boa essa entrevista.

  2. Gustavo said

    Também gostei

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